PÂNICO NO TREM
Hoje eu voltava de trem pra Canoas -
depois de um dia bizarro, em que passei
meu horário de almoço inteiro debaixo
de chuva, por pouco não pegando uma
pneumonia merecida - quando entra uma
velha na Estação Farrapos e pára do meu
lado. Não há um lugar pra velha sentar
e, embora o código de conduta dos seres
humanos diga que devemos ceder o banco
a velhos, gestantes e pessoas com a perna
engessada, nenhum dos trabalhadores
cansados parecia disposto a levantar e
passar o resto da viagem de pé em plena
noite de sexta-feira, justamente a mais
exaustiva da semana.
Então a velha puxa duas agulhas de tricô
e um novelo e começa a tricotar. De pé.
Do meu lado. Não é preciso explicar que.
para fazer tricô, é preciso usar as
duas mãos. E ao fazer isso em pé, é evidente
que o único ponto de eqüilibrio da pessoa
são as próprias pernas. Aí é só deduzir:
se uma velha de 70 anos , segurando a barra
com as mãos, tem uma chance de 50% de cair
no chão e fissurar o fêmur com qualquer
movimento brusco do veículo, imagine essa
mesma velha segurando uma agulha de tricô
em cada mão, com o trem sacodindo
muito mais do que em um dia normal,
por causa da chuva.
Suei frio durante toda a viagem. Com o trem
lotado, não havia como me afastar o suficiente
do perigo que era a mulher. A cada balançada
do vagão, eu via a velha caindo por cima de mim,
a agulha entrando lentamente no meu olho
direito, uma gosma amarela saindo como aquela
japinha do Hostel. Outra hora, era a ponta
furando minha jugular, o sangue espirrando no
paletó do sujeito ao lado, eu caindo no chão e a
velha se curvando em minha direção pra pedir
desculpas. Ou então eu já na maca, sendo
colocado na ambulância com o intestino
perfurado em três lugares por uma agulha
de tricô, a velha do lado de fora rezando um
Pai Nosso atrás do outro.
Sabe-se lá como, mas a mulher não caiu e
não feriu nenhum passageiro até a
Estação Canoas. Desci tendo um pequeno
ataque de pânico e parei de tremer quando
cheguei no portão do meu prédio.
E mais sobre Pink Flag nos próximos capítulos.
Over and out,
Hoje eu voltava de trem pra Canoas -
depois de um dia bizarro, em que passei
meu horário de almoço inteiro debaixo
de chuva, por pouco não pegando uma
pneumonia merecida - quando entra uma
velha na Estação Farrapos e pára do meu
lado. Não há um lugar pra velha sentar
e, embora o código de conduta dos seres
humanos diga que devemos ceder o banco
a velhos, gestantes e pessoas com a perna
engessada, nenhum dos trabalhadores
cansados parecia disposto a levantar e
passar o resto da viagem de pé em plena
noite de sexta-feira, justamente a mais
exaustiva da semana.
Então a velha puxa duas agulhas de tricô
e um novelo e começa a tricotar. De pé.
Do meu lado. Não é preciso explicar que.
para fazer tricô, é preciso usar as
duas mãos. E ao fazer isso em pé, é evidente
que o único ponto de eqüilibrio da pessoa
são as próprias pernas. Aí é só deduzir:
se uma velha de 70 anos , segurando a barra
com as mãos, tem uma chance de 50% de cair
no chão e fissurar o fêmur com qualquer
movimento brusco do veículo, imagine essa
mesma velha segurando uma agulha de tricô
em cada mão, com o trem sacodindo
muito mais do que em um dia normal,
por causa da chuva.
Suei frio durante toda a viagem. Com o trem
lotado, não havia como me afastar o suficiente
do perigo que era a mulher. A cada balançada
do vagão, eu via a velha caindo por cima de mim,
a agulha entrando lentamente no meu olho
direito, uma gosma amarela saindo como aquela
japinha do Hostel. Outra hora, era a ponta
furando minha jugular, o sangue espirrando no
paletó do sujeito ao lado, eu caindo no chão e a
velha se curvando em minha direção pra pedir
desculpas. Ou então eu já na maca, sendo
colocado na ambulância com o intestino
perfurado em três lugares por uma agulha
de tricô, a velha do lado de fora rezando um
Pai Nosso atrás do outro.
Sabe-se lá como, mas a mulher não caiu e
não feriu nenhum passageiro até a
Estação Canoas. Desci tendo um pequeno
ataque de pânico e parei de tremer quando
cheguei no portão do meu prédio.
E mais sobre Pink Flag nos próximos capítulos.
Over and out,

14 Comments:
E eu posso saber por que o senhor, mesmo cansado, não cedeu o lugar pra velhinha?
Tsc, tsc...
Esses dias eu tava no trem e tinha um cara, aparentando uns 23 anos, sentado no banco dos idosos e gestantes. Quando de repente, entra uma mulher no trem, que a julgar pelo tamanho da barriga, ia parir o filho naquele instante. Acredita que NENHUM dos homens sentado ao meu lado cedeu o lugar pra mulher? Nem o cretino do banco dos gestantes ¬¬ Eu mesma tive que seguir de pé a viagem pra grávida poder sentar.
Não se fazem mais homens como antigamente =x
Ah, obrigada por me dar o endereço do "novo" blog.
Bom final de semana pra ti, Gustavo Cavinato. Te cuida.
Bjubju!
Tá, isso foi estranho, hein?
Meu tio perfurou vários órgãos caindo sobre uma daquelas churrasqueiras de latão uma vez.
natacha: eu não tava sentado, fiquei o tempo todo de pé, ao lado da velha. bjo.
helga: pode apostar que foi.
saulo: BAIXO ASTRAL.
Imagine se ela estivesse fazendo overlock.
Eu já ia te dar uma bronca por não ter cedido seu lugar à distinta senhora, mas como você se explicou acima...
vitor: overlock?
liv: na real, não ficou claro no texto se eu tava sentado, e eu tava de pé do lado da velha, me esquivando como podia. só não vou mexer no post porque assim, deixando velhas sem lugar, tá muito do mal.
"só não vou mexer no post porque assim, deixando velhas sem lugar, tá muito do mal".
comentário típico de quem era o último a ser escolhido pro time de futebol, acertei?
liv: "comentário típico de quem era o último a ser escolhido pro time de futebol, acertei?"
na verdade, não. sempre fui titular do time reserva da turma do colégio. titular do time reserva é quase uma ironia da vida, mas é real. e o "tá muito do mal" também tem nada a ver com bandas de black metal ou coisa parecida.
nerd como o previsto.
e da próxima vez vê se passa um sermão em todos os marmanjos do ônibus pra ver se algum se levanta pra ceder lugar pra velhinha.
liv: tu é da Sociedade Protetora das Velhas em Pé, confesse.
nah, eu tenho NOÇÃO de que um dia serei uma delas.
e se já tô com a coluna em frangalhos aos 20, imagine aos 60...
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